Psicanálise: a arte de ouvir a fala e a não-fala, e traduzir em palavras a escuta!
- Fernanda Crosara
- 17 de mar. de 2016
- 3 min de leitura

“Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais: somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos 'sem querer'.” Sigmund Freud
“(...) A escuta capta o inconsciente do outro em seu próprio silêncio. A escuta capta o outro em seu próprio silêncio." J. -D. Nasio
A psicanálise surge na década de 80, criada pelo médico alemão Sigmund Freud, representando uma grande ruptura com a visão disciplinar e de cunho adaptativo que marcavam a ciência da época. Em uma era onde a existência humana atendia a uma lógica que poderia ser representada pela máxima proposta pelo filósofo francês Descartes “Penso, logo existo”, a psicanálise vem propor uma quebra nessa linha de raciocínio nos apontando que “Existo, também onde não penso”, fundando assim a noção de inconsciente e com isso colocando o status de ser humano totalmente racional, coerente e senhor de si em cheque. Isso representou o início de uma nova visão que nos propõe que o homem possui um inconsciente e que não sabe ou não conseguiria chegar a um saber absoluto, uma vez que ele não detém a verdade sobre o mundo e nem sobre si mesmo. Ele existe onde também não pensa, possui um estranho dentro de si, algo que acredita conhecer e ter domínio, mas esse poder lhe escapa.
Com o surgimento da psicanálise e da nova visão sobre esse sujeito que não tem o controle sobre tudo que sente, fala e faz, surge um novo método de trabalho para o tratamento das dores da alma, ou seja, do sofrimento psíquico. A Psicanálise propõe para além de uma teoria e nova forma de ver o mundo, uma técnica nomeada de Associação livre, onde por meio da fala, o sujeito em uma experiência analítica, deve dizer tudo que lhe vier à mente.
A experiência analítica busca através da transferência e linguagem, encontrar o que escapa ao sujeito que diz. E lhe devolver essa escuta em palavras, agora ditas de outro lugar, em um outro tempo, em uma nova condição. Fazer o sujeito se ouvir. Segundo o psicanalista Jacques Lacan, encontramos o sujeito pela linguagem e na linguagem; nos equívocos presentes em seu discurso.
E é disso que se trata a psicanálise. É um convite para entrar em contato com nossos ditos e não-ditos. Com nossos silêncios e barulhos. A psicanálise fala da vida, mas também da morte. Fala da felicidade, mas também da dor. Fala de nossas conquistas, mas também de nossas perdas. Fala de olhar para fora, mas também para dentro de si. Fala de desejo, de implicação, de escolhas, mas também fala daquilo que nos torna reféns, do que nos paralisa e nos petrifica de alguma forma, nos impedindo de ser.
Fala, mas também olha. Ela fala, mas também escuta. Fala, mas nos deixa falar. E às vezes ela se permite calar. Como quem muito diz, nos dizendo que às vezes não há e nem haverá palavras, ou explicações ou mesmo sentidos. Como quem nos diz que algo nos escapa, por entre nossas mãos, mesmo que tentemos segurar. Que essa é uma condição do ser humano e de ser humano. Fala do dual, e que nossa existência subjetiva é uma construção e também uma desconstrução diária, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo.
Ela ouve os barulhos, mas também os silêncios. Ela nos propõe a buscar para além de respostas, perguntas. Formular nossas próprias questões, talvez esse seja um dos principais objetivos de uma psicoterapia baseada na teoria psicanalítica. As respostas são importantes, mas são as questões que nos levam a caminhar.






















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