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Não nascemos apenas uma vez!

  • Fernanda Crosara
  • 12 de mai. de 2016
  • 5 min de leitura

E ali me vi sorrindo com a notícia: acompanharia de perto mais uma gestação! Depois de muitos obstáculos o desejo de gerar uma vida, e de propiciar um nascimento dispara a largada para inúmeros “nascimentos” que aconteceriam a partir daquele momento em que se confirmava a gravidez. Arrisco dizer que esses “nascimentos” acontecem antes mesmo dela se concretizar. Acontecem quando um homem e uma mulher se dispunham a ir em busca desse desejo. E quando esse casal se vê diante da complexidade da natureza, da impotência de ver seus planos de engravidar em alguns meses, se transformar em alguns anos. Porque a natureza nem sempre coincide com nossos desejos. Na verdade quase nunca. Mas isso não se dá em vão: a natureza é sábia.


Foi nesse encontro com a imprevisibilidade e impotência da vida, que iniciava o primeiro grande nascimento: surge ali um novo homem e uma nova mulher, pois desafiados pela vida, optaram por seguir. Se implicaram no desejo comum de gerarem uma criança e serem pais e bancaram pagar o preço por isso. Se foi caro, ou não só eles saberão dizer, mas acredito que com o fim (ou diria inicio) dessa história, o preço ficou pequeno perto do crescimento como humano que tiveram.


Seguiram, e como todo mundo que segue um dia chega em algum lugar, chegaram. O lugar fora tão desejado que a notícia veio em forma de presente. E nascia em minha frente uma nova barriga, diga-se de passagem. Mas será que já havia nascido uma nova mãe? Já nascia um novo pai? Não.

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Picasso

Mas uma mulher e um homem que se vêem gerando uma vida, provavelmente não haveriam de ser mais os mesmos. Vários encontros se dariam dali em diante. Vários ajustes de expectativas. Varias idealizações sendo desconstruídas e sendo substituídas por realidades! O que não deixava de ter seu encanto. Trocar um ideal por uma realidade às vezes é doído, mas é muito mais palpável, e o encanto vêm da forma que você enxerga essa experiência. O encanto não está só no bonito. Não esta só nas alegrias. Não está só no riso. Não esta só no perfeito. (Se é que ele existe).


Em uma gestação não haveria de ser diferente. Apesar de sua beleza esse processo passa por uma realidade muitas vezes idealizada, ou não dita. Nas dores que se sente, nos sentimentos confusos que não se vê nas gestações das famosas, nas marcas e modificações corporais que ficam; na mudança da rotina, nas incertezas e medos que porventura decidem aparecer. Incertezas sobre a própria gestação, sobre o parto, sobre o bebê, e sobre o novo papel que se põe a sua frente: serem pais.


Mas ainda assim, havia encanto no todo, mesmo que nos detalhes houvesse qualquer discrepância entre o que se sonhou e o que de fato era. Muitas buscas se iniciam. Busca pelo que realmente é gerar uma vida. Pelo que realmente é preparar um lar para receber uma vida (que vai muito além de se montar um enxoval). Pelo que realmente é nascer! Afinal nascer não é só sair da barriga. Nascer é nosso primeiro contato com o mundo. E isso de fato possui muita importância.


E nesse preparo, via nascer diante de mim novamente uma nova mulher e um novo homem. Projetos de pai e de mãe, já se sentindo pais, mas concretamente ainda não haveriam de saber o que realmente significava isso. A gestação é apenas uma das formas de se nascer uma mãe e um pai. E existem várias outras! Além de não ser a única forma, também não é garantia de que isso aconteça.


Maternidade

A gestação de um bebê na barriga é o primeiro exercício para a maternidade. Assim como a gestação da ideia de se adotar uma criança também o é. Com as mesmas expectativas e anseios: como ela vai ser? O que vou sentir quando a vê-la pela primeira vez? Será que vou conseguir ser uma mãe? E tantas outras antecipações que vamos construindo ao redor dessa criança que ainda nem veio ao mundo, ou nem chegou ao nosso mundo.


Até porque ser pai e mãe não é gerar uma criança. Gestação, maternidade e paternidade são diferentes não apenas em seu tempo, mas em sua natureza. Uma mulher gera uma criança, e isso não é sinônimo de ser mãe. O mesmo acontece com o pai.


Sempre me questionei quando ouvia a frase: “Eu nasci pra ser mãe!” Afinal o que é ser mãe?. E como saber se nascemos para isso sem termos de fato tal experiência. O que é ser pai? O que é passar da gestação para a maternidade? Ou do adotar para se tornar de fato pai e mãe dessa criança? São questionamentos que sempre se aguçaram dentro de mim!


Tive uma mãe, mas não sei o que de fato é ser mãe, até que eu seja um dia. E a grávida ou a mulher que irá adotar, também não sabe de fato o que é ser mãe, até ver pela primeira vez a criança. Vê-la e a chamar de sua. Olhar em seus olhos e a partir daí construírem juntas, a maternidade. Assim como o pai irá entrar também nessa relação e a partir daí construir esse lugar paterno.


Então vejo em minha frente um casal decidindo que a melhor forma de vir ao mundo seria sentindo juntos cada pedaço desse nascer. Queriam nascer junto com essa nova criança. E nasceram. A criança e eles. E eu também nasci acompanhando todo esse processo, marcado pela dor do parto e por muita vida. Detalhe: não era perfeito como nos filmes e livros sobre o assunto. Havia dor em sua forma mais intensa. Haviam imprevistos naturais da vida. Mas conseguia ser perfeito pela sua imperfeição.


Nasci também ao pegar pela primeira vez aquele ser no colo e ver tão de perto o quanto a fragilidade humana nos confere força. O quanto aquele pequenino ser era grande. E aí sim me deparo com um casal construindo dentro de si uma nova posição: mãe e pai. E pra isso é necessário mais que gerar um filho. É necessário que se encare dentro de si a criança que fora um dia. E com esse olhar encarar sombras, lembranças e experiências vividas.


Encarar sentimentos primitivos, relações, afetos e desafetos que a criança que mora dentro de você carrega. É preciso que para além de um espaço na casa, haja um espaço interno para essa nova criança. As relações no humano são sempre mediadas pela linguagem, nada é inato como na natureza. Ser mãe é uma construção. É se dispor a ser o primeiro suporte desse outro. Interpretá-lo. Tocá-lo. Falá-lo. Fazer com que ele se sinta pertencido e seja banhado pelo toque, cheiro, afeto, voz, som, pelas palavras e por todos os elementos que existem nesse novo mundo.


E isso se aplica a qualquer tipo de maternidade ou paternidade seja de sangue ou de coração. O final (início) dessa história se encontra em construção. E é uma das mais belas que já presenciei principalmente pelos seus desencantos.



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