Procura-se: o dono da verdade!
- Fernanda Crosara
- 19 de set. de 2016
- 4 min de leitura
“Sobre política, religião e futebol não se discute”. Quem nunca ouviu ou falou essa frase. De certa forma eu já a reproduzi e hoje a questiono. Onde se encontra o problema, ou o argumento que torna essa negativa uma ação a ser seguida? Porque não falar de política se todos nós a vivenciamos. Porque não se discutir sobre religião se mesmo não crer em nada é crer em alguma coisa. Qual o problema em se discutir futebol, atividade que se encontra no campo do lazer e entretenimento e tantos outros assuntos? Não estaríamos nós mesmos criando e alimentando grandes tabus? Mesmo que não falados esses assuntos continuam entre nós como não-ditos que não deixam de ter seus efeitos.
Como sempre falo, onde há fumaça, há fogo e quem foi o autor de tal expressão e todos nós que já a repetimos pelo menos uma vez na vida não o fizemos ao acaso. Somos motivados por algum incomodo que nos faz utilizar tal expressão todas as vezes que não queremos entrar em uma discussão ou mesmo quando queremos terminá-la. Essa frase nos mantem distanciados de reflexões que envolva tais temas e acabamos justificando esse distanciamento dizendo que são temas muito “polêmicos” para serem colocados na mesa.

E quem se atreve a escrever ou falar sobre tais temas expondo sua opinião é logo taxado de “polêmico”. E se essa opinião exposta pelo emissor for contraria a do ouvinte, ele é prontamente criticado e tolido pelos que possuem uma opinião contrária. Tudo isso acontecendo em tempos de “liberdade de expressão’.
Porque afinal não discutir tais temas? Porque são polêmicos? Ironia. Somos conhecidos exatamente por gostar de polêmicas. Nada mais polêmico que a programação da televisão brasileira, preenchida por programas, que abordam ou expõe a vida alheia, programas que fornecem informações recortadas ou distorcidas, e por um imenso sensacionalismo em alguns casos (principalmente aqueles atravessados por poder e interesses políticos), que ultrapassa o objetivo de fornecer informações imparciais e passam a se tornar injeções de opiniões, que passarão a ser reproduzidas e repassadas (injetadas) exatamente por aqueles que não discutem sobre política, religião e futebol, mas que se colam em opiniões midiáticas ou de outras pessoas, e não produzem seus próprios discursos mais sim reproduzem os discursos que lhe fora dado.
Essa escrita não objetiva responder a essas questões até porque seria uma resposta minha, e eu estaria tendo a exata postura que estou questionando. Responder a esses questionamentos seria colocar nesse texto a minha verdade. De uma forma ou outra não conseguimos ser totalmente isentos desse posicionamento de dizer nossas verdades.

Mas dizer está em um campo muito diferente de impor. Chegamos ao ponto que gostaria, mencionamos e reproduzimos a frase sobre não se discutir determinados temas “polêmicos”, pois na “verdade” (no caso a minha) sabemos que no final das contas não estamos discutindo, debatendo, conversando ou dialogando tais temas mas sim, na maior parte das vezes tentando impor nossa própria opinião sobre o outro, tentando convencê-lo, persuadi-lo a ter as mesmas opiniões que eu, afinal é bem mais “fácil” estar com alguém que pense igual a mim e que não questione minhas próprias convicções (será? Não sei se é mais fácil, mas garanto que é bem menos rico).
Para impor verdades sobre o outro é preciso anular as verdades dele e im-plantar no lugar delas, as minhas verdades. Dali pra frente ele passa a reproduzir, o que eu penso, o que eu sou e não o que ele poderia ter produzido como opinião.
Lembro-me do saudoso Saramago com uma de suas célebres frases “aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro”. Colonização. Somos um país que viveu um processo de colonização marcado pela violência da imposição de uma cultura versus a aniquilação da outra. Ouvimos nas aulas de História, o quanto esse processo foi medíocre no ponto de vista do sofrimento dos índios brasileiros sendo obrigados a se catequizar, e a deixar de lado seus modos e cultura, suas próprias verdades, e serem invadidos pela cultura do outro. Pela verdade do outro. E as vezes me parece que perpetuamos essa cultura. De colonizar o outro.
As vezes me sinto tolida por pensar diferente. As vezes me sinto tolida em dizer que não prefiro A nem B pois nenhuma das duas opções me representa, as vezes quero criar ou que seja criado um C. As vezes vejo os diferentes tentando impor suas diferenças nos ditos iguais por eles. Mas qual a lógica disso? Colonizar o outro. Impor sobre ele uma verdade.
Em psicanálise dizemos que o homem vai se constituindo de acordo com o que lhe é passado pela cultura, família, pais, e todo o ambiente que lhe rodeia, e com o que ele captura de tudo isso, e que mais tarde se constituíra no que ele irá chamar de suas verdades.
Logo vivemos todos no mesmo mundo, mas dentro deste mundo em comum existem milhares de mundos diferente pois cada ser humano o interpreta de uma forma muito peculiar. Cada um tem uma visão diferente sobre fatos, argumentos, sobre a realidade. Então afinal, será que existe verdade, ou verdades? O que é afinal a verdade? Assim como o ser humano possui várias facetas, a verdade possui vários lados, porque ela nada mais é que uma realidade interpretada.
Cabe a você se blindar as suas interpretações ou se abrir para um mundo de outras interpretações, outras verdades. O dono da verdade, esse nunca existiu (na minha verdade).






















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