Horário de Verão: A hora de ajustar seus ponteiros!
- Fernanda Crosara
- 16 de out. de 2016
- 4 min de leitura
" O tempo se foi
A música acabou
Não tenho mais nada a dizer"
O tempo comporta em si uma ambiguidade: as vezes temos a sensação de que ele passa rápido. Outras de que ele passa devagar. De que já é tarde ou de que ainda é muito precoce. O tempo é algo muito relativo, e mais relativo ainda é a forma como cada um o vivência e captura.
Se existir é uma relação entre tempo e espaço, se propôr a pensar no tempo é fundamental para se pensar no viver. Será que a vida acontece em uma relação inversamente proporcional ao tempo? Se aplicássemos tal relação chegaríamos a proposição de que quanto mais o tempo passa menos vida se tem. Se fosse assim seria de certa forma simples.

Porém a complexidade da vida, da existência e ainda mais do significado do tempo pra cada um, não nos permite colocar em prática essa afirmativa e relação. Afinal o que é viver quando se pensa em tempo? Ter mais tempo de vida é necessariamente viver mais? E ter menos tempo de vida, significa que aquele sujeito viveu menos? O que é viver afinal?
Tempo é o que se conta no relógio? Ou existe um tempo para além das batidas do medidor de tempo do humano? Para além dos segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, séculos, milênios? Existe alguma medição que me permita dizer que algo aconteceu cedo demais? Ou que é tarde demais para acontecer?
Perguntas que exigem respostas, porém respostas que não são tão facilmente formuladas e muito menos homogêneas. Cada um irá buscar caminhos e recorrer a experiências e significados muito peculiares e íntimos para formular tais respostas. Santo Agostinho já se questionava sobre o que é afinal o tempo. E respondia que enquanto ninguém fizesse essa pergunta ele saberia responder, mas que se a fizessem, a partir daí ele já não obtinha uma resposta.
Falar sobre o tempo é algo tão complexo, pois se trata de algo que nos escapa, que não apreendemos, pois é de certa forma invisível, que não conseguimos medir...Percurso do sol? Estações do ano? Relógios? Calendários? Sim, uma invenção humana para tentar controlar o que é incontrolável, tentar capturar o tempo.

Tentar se localizar de alguma forma no abismo que era existir sem se apoiar em parâmetros e padrões que recortassem e nomeassem de alguma forma a nossa existência. Sempre buscamos nomear aquilo que não conseguimos apreender. Afinal, dar nome a algo é supostamente passar a conhecer aquele objeto e ilusoriamente exercer um domínio sobre algo que antes nos escapava. Tornamos o tempo, anteriormente imensurável, em algo mensurável, controlável e fixo.
Para isso dividimos e nomeamos o tempo. Porém isso se trata apenas de um recorte do tempo. Do tempo possível de ser padronizado. De um tempo que nomeamos cronológico.
Nesse tempo o relógio opera como ator principal e nós nos tornamos guiados por ele, organizando nossas ações, planos e atos baseados em uma divisão cronológica de nossa existência. Porém, ao fazermos isso acabamos criando alguns padrões, que geram uma ideia de que para cada evento ou vivência, haveria um tempo certo para que aquilo acontecesse ou ainda uma duração permitida para se vivenciar aquilo.

Padrões cujo significado foi atribuído pela cultura vigente. A produção do sistema capitalista e toda sua lógica nos trouxe a ideia de tempo como algo que se esgota e que portanto precisamos produzir ao máximo em um curto espaço de tempo. E produzir no sentido amplo da palavra. Produzir e alcançar uma meta em um prazo previamente estabelecido. Precisamos aprender cada vez mais, obter mais atributos, capacidades, bens, dinheiro, prazer, experiências, enfim, fazer, sentir e ser sempre mais o quanto antes. Se isso acontecer depois do prazo imposto por discursos invisíveis não tem mais o mesmo valor.
Esgotar cada minuto de nossa existência com algo que traga uma produção visível. Pressa. Isso nos trouxe a ideia de ter sempre pressa. De ter parâmetros a cumprir em cada faixa etária. Correr contra o tempo, para e pelo tempo. Produzir. Nunca perder tempo. E ai entraram em jogo a classe de eventos e ações que ganham conotação de perda de tempo. Também entraram em jogo os tantos prazos que temos que seguir.
Com tantos anos temos que ter aprendido a andar, falar, escrever, ler, namorar, entrar na faculdade, formar, casar, ter filhos e assim por diante, em uma sequência que nunca tem fim. Quase como se vivêssemos pra cumprir essas metas. E se alguém não aprende no tempo estipulado, ou entra na faculdade e decide mudar de curso, ou se casa e divorcia, ou não se casa, ou não quer ser mãe... alguma coisa está errada. Algo da ordem do tempo se perdeu.
Baseados nos padrões estipulados, perdemos muitas vezes os ganhos de se viver independente do resultado final ter sido alcançado ou não. E o tempo que deveria ser subjetivo, se torna um tempo que é comum para todos nós e com obrigação de prazos a serem seguidos. Quando na verdade, o tempo deveria ser subjetivo, portanto, cada sujeito tem um tempo diferente para cada ação que se propõe a fazer, se seu desejo apontar para tal.
Nessa correria contra o tempo, corre-se o risco de deixar cair da bagagem o sentido das coisas. Continuar fazendo algo que não tem sentido. E se a pergunta é por que, a resposta é porque sim. Vivemos correndo contra o tempo, mas se pararmos pra pensar, corremos no tempo e fazemos o tempo correr. Vivemos esperando o final de semana, os feriados. Esperando quando vamos fazer 18 anos, quando vamos nos formar, quando formos bem sucedidos... Contradição. Mas quando chegamos no ponto que corremos para “chegar logo”, queremos ir além. Corremos até contra os efeitos que o tempo tem no próprio corpo. Marcas do tempo!

Taí algo que lutamos para esconder. Marcas que significam que vivemos, que o tempo se passou em nós. Tempo trocado por dinheiro que não pode ser gasto por falta de tempo. Ironia. Contradição. Tempo trocado para se plantar algo para um futuro que nem sequer sabemos se virá.
Cortella diz que o ser humano é o único animal do mundo que sabe que vai morrer e vive como se não fosse. Os outros animais não sabem que vão morrer e vivem cada dia como se fosse o último. O tempo nos foi dado e ele está passando. Como temos passado por ele? Refletir sobre o tempo e sobre como o vivenciamos... cabe a cada um decidir se isso é perda de tempo ou ganho de um tempo que poderia ser perdido.






















Comentários