top of page

Discursos e seus "cursos" in-visíveis

  • Fernanda Crosara
  • 2 de ago. de 2017
  • 6 min de leitura

“Sentada na praça, observo por um minuto um amontoado de gente fazendo volta em uma mulher sentada no chão que gritava: “eu quero o meu anel”. Como estava próxima, podia ouvir o que as pessoas diziam após ficarem paradas um tempo, sair e comentarem: “mulher louca”, “vamos sair daqui que é perigoso... ela agredir alguém”. Vi um indivíduo pegando seu celular para filmar. Levanto no mesmo instante e digo: Moço você não vai filmar ela. E ouço de outra pessoa: “então é melhor chamar a polícia, porque ela ficar aqui gritando que quer esse anel não da né”. Sem titubear disse: "não da é ver vocês se incomodando tanto com isso acontecendo, querendo filmar, ainda mais em um espaço público. Fiquem tranquilos ela só quer o seu anel, podem ir tranquilos, não é caso de policia minha senhora, está longe de ser, agora se vocês filmarem ai vai se tornar.” (Uberlândia, Marco/2017)


“Uma colega de trabalho em uma instituição de atendimento a pacientes de saúde mental chega à sala de profissionais e diz da preguiça em atender seu próximo paciente, pois ele fala muito e sempre fala a mesma coisa, repetidas vezes e sem nexo nenhum.” (Uberlândia, Fevereiro/2016)


“Saindo de casa no inverno, um frio de lascar e uma chuva bem fina e fria, muito gelada. Eu estava de carona, quando ao entrar no carro, vejo um morador de rua que parecia sob efeito de álcool e custava a andar dizendo: “Moça por favor me dá comida, estou com frio”. Na hora coloquei a mão para abrir a porta e disse pra pessoa que dirigia o carro, vou lá ver o que posso dar a ele. A pessoa arranca o carro e diz: “ ele escolheu beber, ele esta bêbado. Não quer comida, quer bebida. Foi uma escolha dele eu não posso fazer nada... mas e ai o que vamos comer?”“. Desculpe, mas a ultima coisa que me deu ali foi fome” (Uberlândia, em algum mês frio de 2016)


“Em uma roda de amigos escuto a seguinte colocação: “eu acho é pouco acordarem moradores de rua com jatos d’água, bom pra ver se eles dão uma acordada mesmo, a vida não é fácil assim igual eles pensam não. Eu tenho que trabalhar porque eles não?” (Uberlândia, Abril/2017)


“Um morador de rua na porta de um banco de Uberlândia, sentado no chão, com sua caixinha de moedas, sem dizer uma palavra, sem olhar pra ninguém, sem atrapalhar a entrada. Da mesma forma que não olhava ninguém, ninguém o via. Até que chega algum funcionário do banco e diz que se ele não saísse dali ele chamaria a polícia, pois ele já havia avisado várias vezes que ali não era o lugar dele (e qual seria?- me pergunto). Ao questionar o funcionário sobre qual seria o problema do homem se manter ali ele diz: “os clientes do banco estão com medo de sair, serem roubados, agredidos”(Uberlândia, algum mês de 2017)


“Fazendo um estudo de caso leio que a queixa que justificaria o tratamento medicamentoso do adolescente seria o fato dele ser muito sensível e se afetar demais com o mundo” (Uberlândia, Junho/2017)


Guardo essas cenas há muito tempo, faço questão de não me esquecer de nenhuma delas, e essas são apenas poucas de uma coleção! Que triste! Queria poder dizer que isso não acontece em pleno século XXI, “quem me dera ao menos uma vez acreditar por um instante em tudo que existe, acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes”. Não! Não são! E isso não é sempre uma questão de escolha, pois em algumas realidades bem, bem distantes da nossa que estamos aqui podendo ler esse texto, não houve opção de escolha, e se houve ,era uma escolha entre qual opção seria a menos pior.


Quando se fala de saúde mental, não estamos falando só de sujeitos acometidos por sofrimento psíquico, estamos entrando em um campo permeado de um histórico, de uma bagagem discursiva que o marca, de sentidos produzidos e atribuídos ao fenômeno da loucura e que refletem e caem sob qualquer evento que faça parte desse campo, seja a dependência química e os transtornos psi de um modo geral.


Acontece que essa bagagem foi constituída, atribuída e ressoa em sujeitos que a partir do momento que se vêem nessa condição passam a sofrer os efeitos de discursos que reverberam até os dias atuais e que nem sequer sabemos que reproduzimos e os tornamos vivos, cerceando tais sujeitos que já estão em sofrimento, e não somente por escolha.


O sujeito que está sob o efeito de álcool, ainda sente fome e frio. O sujeito que quer seu anel por algum motivo,, não vai necessariamente agredir ninguém. O morador de rua não precisa de um jato d'água fria para acordar, ele já sente na carne que a vida não é fácil.


Eu não sei se perdi algum capítulo ou período da graduação, mas desde quando se afetar pelo mundo e ser sensível é um fator para tratamento psiquiátrico. Sendo que os únicos sintomas eram esses. E para o sujeito isso não lhe trazia sofrimento. Acho que em um mundo desafetado, sim! Um sujeito que se afete pode ter que ser tratado.


O paciente que vai falar muito (e que bom que ele esta podendo falar) deveria poder falar o que ele quiser, mesmo que isso seja uma repetição. Afinal a repetição é uma tentativa de elaboração. Uma das coisas que me questiono dentre tantas é sobre o sentido de um atendimento onde o psicólogo ou terapeuta fale mais que o paciente. Ali não seria o espaço de escuta desse? Onde ele poderia dizer de si, de suas questões, de suas repetições, de seu discurso desconexo, do que desejar, inclusive se desejar ficar em silêncio?


Discursos, discursos, discursos, invisíveis ou nem tanto, nos atravessando, nos marcando, nos fazendo produzir sentidos. Escolhemos alguns e formamos opiniões, que geram comportamentos. Alguns estão em nós e nem nos damos conta. Nunca paramos e questionamos o porquê temos a ideia de que todos pacientes psiquiátricos são agressivos.


Não nos perguntamos o que será que levou um sujeito a morar na rua. Qual seria a sua história? Nunca nos questionamos que um usuário de álcool e outras drogas sente fome e frio, pois não deixou de ser gente. Não paramos pra nos perguntar se aquilo foi uma escolha, e mesmo que tenha sido, porque não podemos respeitá-la?


Quando se faz parte de uma rotina institucional, ou de um grupo, ou se faz pertencer a qualquer lugar que tenha um contorno definido é inevitável o risco de ser sugado e cegado pelos discursos que atravessam tais espaços e os constituem num dado momento.


O discurso que muitas vezes legitíma a importância de se manter esses pacientes e sujeitos em um espaço segregado ou que nos dizem que eles são perigosos, ou escolheram estar nessa condição, como se a escolha não trouxesse um sofrimento, parece carregar como não-dito um discurso sobre a loucura permeado pelo imaginário social, pela mistificação desse fenômeno e relações de poder. E isso é histórico!


Ou seja, não tem só ciência envolvida, tem política, tem religião, tem dogmas, tem poder. Tem muita relação de poder. Discursos esses que marcam a história da loucura e que a acompanham até os dias atuais e reverberam nesses sujeitos das cenas descritas e em muitos outros.


Se deixar afetar pelo campo mantendo um olhar crítico, seja como cidadão, profissional de saúde, usuário do serviço, familiar ou como sociedade é fundamental, pois é através dessa consciência que se pode caminhar para a construção de um sentido para os fatos que ali ocorrem, para a psicopatologia daquele paciente e para todos os outros fatores que atravessam a relação sujeito em sofrimento/ mundo; paciente/ profissional de saúde; paciente/ sociedade e que a torne menos enviesada e limitante.


As relações de poder, por exemplo, quase sempre se colocam de maneira invisível, inofensiva, inocente. Como nas cenas que me deparei. Cenas que arrisco a contar nos dedos quem estranhou. Quem percebeu. Quem se afetou. Quem questionou. Quem enxergou. E os efeitos que essas relações de poder podem exercer meu caro, são capazes de silenciar muitas vozes, muitas histórias, muitos direitos, muita saúde, muita vida.


Estar em sociedade é, de alguma forma, se alienar em discursos e práticas institucionais. E sim formar opiniões baseadas no que vemos, no que ouvimos, nos discursos. Porém precisamos sempre procurar ter consciência de tais discursos que circulam, nos atravessam e passamos adiante. É poder se implicar no que é dito, e evitar a repetição de uma fala dissociada de uma ação reflexiva, ou ao menos, repetir tendo ciência disso.


É perceber a necessidade de se identificar e refletir sobre a bagagem discursiva que se carrega. Dessa forma têm-se a possibilidade de conhecer quais discursos carregamos, quais desejamos carregar e quais são seus atravessamentos e com isso criar possibilidades para a enunciação de um discurso próprio, enunciação de sujeitos, saindo assim da condição alienante de reproduzir uma fala. Pode-se a partir daí, produzir falas.


E mais que isso, é ter uma coisa que nunca deveria ter sido perdida, em nenhum momento, em nenhuma cena, em nenhum caso... Humanidade. Empatia. “somos todos iguais, braços dados ou não” ... “mas nos deram espelhos, e vimos um mundo doente”.


Que possamos ao menos enxergar essas cenas que estão acontecendo a rodo por ai, e minimamente nos afetar com aquele igual a mim que está sendo o protagonista dela, mesmo que ele só seja um igual em situação de sofrimento. Não são somente tijolos que constroem muros, não são somente camisas de força que prendem, não são somente manicômios que aprisionam... discursos também! Que nos questionemos sempre!


 
 
 

Comentários


Categorias
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
Fernanda Crosara
  • Facebook Clean
WhatsApp-Fernanda-Crosara
(34) 98811-1649
bottom of page