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Deus acima de todos, mas também de Arthur

  • Fernanda Crosara
  • 30 de jun. de 2021
  • 4 min de leitura




A “loucura” nunca esteve tão perto de nós. Acredito ser esses um dos principais elementos que transformam a experiência de ver “Coringa” de Todd Phillips em algo único, angustiante ou no mínimo inquietante. É inevitável a sensacão de mal-estar que permeia nosso imaginário até depois do filme, e em minha experiência por muitos dias seguidos. Seja pela espetacular atuação de Joaquin Phoenix, seja pelo roteiro que consegue perpassar diversos momentos importantes para que consigamos apreender a constituição desse anti-herói e que nos faz perceber, mesmo que de forma pincelada, o quanto nossa estrutura social serve de alicerce da barbárie, de sujeitos que causam o caos, que alcançam as obscuridades da subjetividade humana.


Humano. Sim. O personagem é demasiado humano. Ao nos mostrar todos os eventos históricos que antecedem a constituição do alter-ego Coringa, o filme acaba revelando o quão humano Arthur Fleck é. E ao meu ver essa é a grande sacada do filme. Mostrar o quanto o seu personagem principal em sua humanidade, vive em posições sociais que o oprimem, esmagam sua subjetividade, negligenciam sua condição psíquica e social.


Existe uma linha muito tênua na forma de se analisar tal enredo, uma vez que a trama pode nos levar a pensar em uma espécia de promoção da violência, uma vez que o filme revelaria “justificativas” para os atos criminais que o Coringa comete. A grande questão ao meu ver, é que enxergar o filme dessa forma é na verdade se manter numa discussão rasa e não aproveitar todo potencial reflexivo que o filme consegue trazer.


Percebemos frente a realidade exposta de Arthur, o quanto as suas escolhas eram limitadas. Voltemos para a história. Marcado desde a infância por inúmeras violências e opressões; por uma doença neurológica que o faz emitir risos involutários e prejudica com isso todas suas relações sociais; carregando consigo um significante e ideal na forma de imperativo categórico “seja feliz/ faça os outros rirem”( condição essa que pelos traumas era tido por ele como um grito opressor, uma vez que ele carregava dor, não alegria); colocado numa posição de objeto de gozo da mãe que ora o demandava cuidado, ora o infantilizava; marcado pela profissão de palhaço (alguém estranho, alheio, e que consegue denunciar as mazelas pela sua dor, e com isso ri de sua própria pena).


Alguém negligenciado pela saúde mental, que não consegue ouví-lo em sua subjetividade e sofrimento. Alguém que sofre inúmeros percalços pela sua condição, e que depois de muitas tentativas explode. E mata “cidadãos de bem”. Nesse momento vemos uma virada. Pois Arthur consegue por meio de suas alucinações e delírios manter relações sexuais com uma mulher, fazer seus show de stand-up, sendo inclusive aplaudidos pela sua admiradora e reconhecido. Após se inaugurar no crime, parece ser possível preencher as lacunas de sua vida, mesmo que com processos alucinatórios. É possível se tornar alguém. É possível se tornar um homem, um homem ideal. Que faz as pessoas rirem.


A realidade e fantasia se fundem nos fazendo vivenciar a propria confusão de não conseguir identificar tão claramente a realidade do fictício. Assim para se inaugurar como um sujeito Arthur precisa matar sua mãe na realidade, e se desvencilhar de todo “eu ideal” que carregou dela.



Ele não é engraçado para os outros. Mas é pra si mesmo. “minha vida é uma comédia” diz ele se apropriando da própria desgraça. Quando o ser humano é pisoteado, esmagado, quebrado, desconstruído em todas suas tentativas, pode ser a barbárie uma saída, se não, a única. Vemos então a sociedade tão perversa quanto o vilão.


O filme nos faz pensar na constituição da loucura como algo humano, nos levando de encontro a nossa própria loucura. Vemos o quanto o sujeito louco, tão invizibilizado e marginalizado em nossa sociedade, é na verdade um produto e denunciante das nossas condições de relações. O filme humaniza o anti-herói tirando-o do lugar de monstro e demonstrando quanta humanidade existe ali.


Dessa forma de cara, criamos uma empatia com Arthur, o que afinal nos assusta, pois, conseguimos captar uma espécie de lógica em seus atos bárbaros. Isso nos leva a possibilidade de rever tudo que nos rodeia e que julgamos como atos absurdos e desumanos. Mas que na verdade são atos que denunciam em grande parte nossa estrutura social e a forma como temos produzido nossas relações. Desde o preto pobre da favela que vai para o tráfico e mata, pois, a vida ali tem outro valor, até o jovem que sofre bulling e articula um massacre na escola, dentre tantos outros exemplos.


Atos jamais justificáveis mas que nos contam que algo não vai bem. Atos humanos e que possuem uma constituição social. Afinal, já dizia Paulo Freire, onde não há liberdade, o sonho do oprimido se torna ser um opressor. Será que existe liberdade de escolha para esses sujeitos marginalizados? Se olharmos pela ótica dos inúmeros discursos opressores que produzimos e reproduzimos diariamente. Discurso de ódio, discurso machista, homofóbico, racista, misógino. Discursos que marginalizam e oprimem. Discursos que tiram a liberdade e promovem a constituição de opressores. Como o Coringa.


Bem e mal se dissolvem e se fundem. Passamos a ver lógica nos atos bárbaros do Coringa. Que passa a ser Coringas. Cenas difíceis de assistir. Mas a dor dos assassinatos já existia na subjetividade de Arthur e creio que não era menor ou maior. Era dor. Invizibilizada. “Vítima e reú. Juiz e justiceiro”. Sentimos vontade por um minuto de subir ao patamar de oprimir todos nossos opressores. E isso nos coloca numa posição de antí-heroi.


Mesmo que na fantasia. Isso é potente o suficiente para nos gerar tanto mal-estar. Não creio que nesse filme nos identificamos com os ditos “cidadãos de bem”. E percebemos com isso a capacidade geradora de Coringas que nossa sociedade possui. O mau dessa forma não esta tão longe de nós. Se torna algo humano, humaníssimo.


E cabe a nós refletir frente a essa sociedade tão opressora aos marginalizados formas menos catastróficas e bárbaras de ser e estar no mundo.


Deus está acima de todos, mas também de Arthur.


Fernanda Crosara

 
 
 

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