Onde há sintoma, há sujeito.
- Fernanda Crosara
- 29 de abr. de 2016
- 4 min de leitura

"Porque o sintoma é uma metáfora, quer se queira ou não dizê-lo a si mesmo, e o desejo é uma metonímia, mesmo que o homem zombe disso.” (Lacan- A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud)
O ser humano é marcado por seus sintomas. A etimologia da palavra “sintoma” vem do grego, e significa sin (juntar) tomo (pedaço), ou seja, juntar os pedaços. Assim como em um “quebra-cabeça”, o sintoma vem como uma peça solta que deve ser unida a outras para conseguir ter uma visão e compreensão do todo.
Segundo Quinet (2000) todo sintoma possui um sentido, algo a ser constatado. O sintoma psíquico, assim como um sintoma orgânico, representa um sinal. Um sinal vem para sinalizar algo.
Assim como a febre sinaliza que algo naquele corpo precisa ser olhado, o sintoma psicológico atende a mesma lógica, porém com uma diferença: nem sempre ele é visível e detectado pelo outro, às vezes só o sujeito poderá falar dele e sinalizar aquele estado. E muitas vezes nem o próprio sujeito consegue dizer de seu sintoma, e ele aparece como um não-dito, um silêncio, uma quietude com muito barulho dentro.
Ele pode estar implícito ou explícito. Pode estar no sujeito, em uma instituição ou grupo, ou no entre. Na fresta entre dois sujeitos, ou entre um sujeito e uma instituição. Em todos os casos o sintoma se apresenta para o sujeito e para os outros como um modo de expressão, sendo assim ele é um representante do próprio sujeito, sua marca estrutural e estruturante. É também a maneira pela qual o sujeito conseguiu se haver com a realidade que o cerca e com sua realidade psíquica, que são realidades diferentes!
Porém, a psiquiatria clássica e muitas psicoterapias construíram ao longo de sua existência um olhar biologizante sobre o ser, e mesmo com as mudanças contemporâneas e avanços, essa herança discursiva ainda atravessa nossa forma de ver e cuidar do sintoma psi.

A questão é que influenciadas pela indústria farmacêutica e pelo desejo de cura imediata de nossa era, o cuidado do sintoma psicológico fica muitas vezes ligado a sua remissão a qualquer custo, correndo-se o risco de não ouvir e trabalhar a dimensão subjetiva do sintoma. Como se aquele sujeito fosse composto somente de um corpo. Cala-se o sintoma, mas cala-se também o sujeito.
Com essa visão muitas vezes o sintoma psicológico acaba recebendo tratamentos padronizados, com elementos definidos, controlados, e onde o foco está em dar nome aquele sintoma, quando na realidade sua dimensão subjetiva é única, devendo, portanto ser olhada em sua individualidade.
Sendo assim o sintoma vem à tona, pois, tem algo a dizer, e é preciso se propor a ouvir e decodificar a mensagem que ele passa. É necessário que o sujeito se disponha a falar sobre seu sintoma, pois assim ele poderá ser reconstruído. Calar o sintoma é perder a chance de ouvir a marca do sujeito que está presente nele, sua verdade, elementos de sua constituição psíquica que poderiam ajudar o sujeito a empoderar-se de sua história e construir movimentos diferentes de existência.
E essa escuta deve se apresentar no sentido amplo da palavra. Escutar é ouvir o que é dito e não-dito. É estar aberto aquele sujeito que se apresenta em sofrimento. Escutá-lo em sua loucura e não somente com nossa lógica racional. Estar disposto a adentrar o seu mundo e conhecer sua lógica. Escutá-lo de forma generosa e curiosa, deixando de lado preposições feitas e nossas próprias verdades.
Costumo pensar no sintoma como a “ponta de um iceberg”. Tratando-se somente o sintoma em si, ou seja, o que está posto em uma crise psíquica por exemplo, não se chega aos componentes que constituem o sintoma, em sua imensa complexidade e dimensão simbólica. Cala-se o sintoma e em breve o “iceberg” apresentará outra ponta. É importante criar condições para que esse sintoma possa ser decodificado, desconstruído, complexificado, para que esse sujeito possa ser significar sua experiência e colocada no nível de uma palavra possível de ser dita.

A questão a se pensar é: Olhamos apenas para o sintoma em si, o que está posto, ou enxergamos seu potencial de sinalizar algo além do que se vê? Olhamos apenas para o sintoma em si ou conseguimos enxergar o sujeito que ali se encontra? Temos permitido que esse sintoma apareça? Temos focado nosso olhar na "cura e remissão de tais sintomas", ou buscamos a sua significação?
Não cabe ao analista chegar para o sujeito em uma significação metafórica do sintoma, mas o sujeito pode em um processo analítico ou até mesmo a partir de uma escuta singular construir essa significação.
O sintoma pode ser paralisante em um primeiro momento, porém pode se tornar uma potência, pois através de uma escuta e trabalho psíquico, surgem oportunidades desse sujeito criar uma nova ordem, uma nova posição, uma nova forma de existir no mundo. A verdade do sintoma é uma verdade construída, mesmo sem a consciência disso, portanto onde há sintoma, há sujeito!
"O fato de o mar estar calmo na superfície não significa que algo não esteja acontecendo nas profundezas" O mundo de Sofia






















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