Inversamente Proporcional
- Fernanda Crosara
- 24 de mar. de 2016
- 4 min de leitura

“A palavra amor anda vazia, não tem gente dentro dela “, já dizia Manoel de Barros...Já as redes sociais andam cheias, abarrotadas, lotadas de gente, mas esse número elevado não deixa de gritar que anda cheia de gente e cada vez mais vazia de relação, vazia de essência, vazio de valor, vazia! Um vazio que se potencializa ainda mais pelo “cheio” de gente. Quanto mais menos.
Parece que o mundo virtual é regido por uma relação inversamente proporcional, ou seja, que se encontra em circunstância invertida, onde quanto mais amigos tenho na rede, mais se denuncia uma solidão. Quanto mais curtidas tenho na minha página, mais se desnuda em mim a necessidade de manter esse número ou ainda aumentá-lo.
Quanto mais elogios recebo, mais revelador se torna a minha busca pela perfeição. Ideal de perfeição inalcançável, todos sabemos. Mas como não se cobrar perfeição em um plano onde todos se moldam em formas tocadas pelo perfeito. Mas por que cargas d’água então continuamos buscando algo inalcançável e cobrando de nós e dos outros tais parâmetros? Porque mergulhamos de cabeça em um mundo criado, fictício, em uma verdadeira cena montada onde temos controle sobre tudo (mera ilusão claro!?), e deixamos a intensa aventura de viver o inesperado da vida? Cena montada. Minuciosamente montada por nós mesmos, por nós e para nós.
Cenas são montadas em palcos de teatros, onde temos alguns elementos em comum. Cenário, figurino, script, elementos de palco, atores, platéia. Fazemos de nossas vidas uma verdadeira peça teatral com direito a todos elementos citados acima. Nos tornamos atores de nossas próprias vidas e espectadores das peças teatrais, ou melhor, das vidas alheias. O preço do bilhete de entrada é pago diariamente pela perda da liberdade de podermos sair sem estar com nossos celulares no bolso e sermos convidados a todo momento, ou melhor, em todas notificações, a assistir mais uma peça alheia. Ou a ter que elaborar a nossa própria. Nessa hora até dá pra escolher não entrar na peça, mas entramos mesmo sem entender por quê. Como se existisse uma força inexplicável e sem uma razão lógica. Simplesmente para assistir.
Somos parte de todo esse cenário e espetáculo que se chama vida virtual. Espetáculo esse que colocamos como parte de nosso cotidiano, e que mesmo parecendo a olho nu tão inofensivo, nos influência inteiramente. Olhamos e seguimos pessoas, que às vezes nem conhecemos, mas que pela peça já consideramos que conhecemos o ator. Já formamos uma opinião bem concisa sobre a pessoa e sobre sua vida. Modificamos nossas relações com as “gentes”, onde cada vez mais olho pela internet e menos no olho. Relação inversa novamente. Onde ao invés de me relacionar com o outro, relaciono-me comigo mesma. Onde ao invés de tirar uma foto com o outro, volto à tela do meu celular para mim mesma e tiro uma foto de minha própria imagem.
Olho-me cada vez mais, me seleciono, me filtro, me posto, me curto, e cada vez menos me vejo. Relação inversa. Cada vez mais meus olhos se voltam a minha própria imagem pela tela do meu aparelho e menos me enxergo em minha imagem real, sem filtros, ou seleções possíveis. Contradição! Me olho mais, me vejo menos. Contacto mais pessoas, e me relaciono menos com elas.

Lembro-me do Mito de Narciso, onde ele se perde em sua própria imagem refletida no espelho da água de uma lago e que ao ser tocada se desfaz em milhares de formas e ele se vê afogado em seu próprio reflexo. Mito que se torna realidade? Estaríamos prestes a nos afogar mergulhados em nossas telas de aparelhos eletrônicos? Sem dizer do significado que a fotografia, tão valorizada e guardada com zelo pelos nossos avôs, hoje em dia se perde tão fácil quanto pode ser criada. Será que temos feito isso também com nossas memórias e experiências? Estaríamos armazenando, selecionando, filtrando e deletando de forma tão acessível e com a mesma rapidez tudo que for lembrança em nossa mente? Será que estamos tendo tempo de assimilar tudo que lemos, postamos e produzimos no meio virtual? Ou estamos prestes a simplesmente processar dados?
Radicalismo? Pode ser, mas aqui tudo pode. Esse mundo é permissivo, mas tem conseqüências bem severas. Pagarei com a opinião alheia. Mas confesso gostar da ruptura que as vezes o radicalismo causa. Do caos de opiniões divergentes. Do divergente que grita que aquilo é verdadeiro. Do verdadeiro, que muitas vezes está no caos de uma imperfeição. E da imperfeição que não entra nas redes sociais. E não digo apenas de imperfeição da ordem do físico, até porque pra isso temos filtros que já eliminam tais problemas. Filtros poderosos, diga-se de passagem. Mas falo do imperfeito da nossa essência, do humano, comum a todos nós meros mortais, e que não compõe a tal cena da vida virtual. Acho que isso é o que mais incomoda. Como pensar em uma cena da vida real onde a imperfeição não atua, não faz parte do elenco. Cena irreal, só pode.
Cobramos que nossas vidas reais atendam aos parâmetros instituídos por uma cena irreal. Não posso negar o gostinho da contradição de acabar esse texto, e abrir meu Whatsapp. Sim não escolho escrever nesse tempo verbal em vão. Mesmo propondo essa visão e reflexão, sinto-me parte da lógica que esta era vende. Acredito que todos fazemos parte disso de alguma forma.
O convite aqui não é tão radical do tipo #deletesuaredesocial. Não usaria tal hiperativo categórico. É inegável o quanto o aparato virtual pode sim facilitar contatos pessoais, rotinas e tarefas tanto da esfera profissional quanto pessoal. O convite é a reflexão sobre a forma que estamos utilizando tal ferramenta, sobre o quanto ela tem mediado a minha relação com o mundo a minha frente, e o quanto deixamos ela extrapolar o nível a que ela pertence: nível virtual. A vida é aqui e agora, e se tem uma coisa que é real nas redes sociais é que a vida passa tão rápido quanto a timeline do Facebook!






















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