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Precisamos falar sobre suicídio!

  • Fernanda Crosara
  • 13 de abr. de 2016
  • 6 min de leitura

“O suicídio de Dorothy Hale” de Frida Kahlo (1938)

Já dizia Albert Camus “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. Se dispor a julgar se a vida vale ou não a pena é buscar responder a pergunta fundamental da filosofia. Frente a essa pergunta todo o resto se torna secundário: se existe vida fora da terra, se o homem foi realmente a lua ou se conseguiremos descobrir uma forma de sermos jovens eternamente.

Quando se questiona o sentido da vida, quando se coloca em cheque o valor de acordar, respirar, o real valor de se viver sempre buscamos algo comum: é preciso primeiro responder tal questão. Qual é o sentido da vida? Sabemos que a morte é algo natural e predestinação de todo ser vivo, logo de todo ser humano. Mas o homem ainda busca razões que justifiquem a morte para além da explicação natural, pois, para ele, o perecimento é algo que desvela a sua fragilidade, sua temporalidade, sua finitude.

Por muitas vezes a morte e o morrer é encarado por nós como um assunto proibido, um tabu, se tornando até mesmo um não-dito. Não falamos e nem queremos ouvir sobre o tema. Um dia ouvi de uma pessoa a seguinte frase: “você não tem medo de ficar refletindo sobre a morte não? Atrai coisa ruim.

Esse posicionamento, advêm da forma como nossa sociedade e cultura, no caso ocidental, atribui significado a esse fenômeno tratando-o como um tabu. As pessoas não querem pensar, ouvir ou falar sobre morte. É como se morte e vida fossem dois pólos irrelacionáveis, quando na verdade são dois lados da mesma moeda. Vida e morte fazem parte juntas de um processo pelo qual todos os seres vivos passam: a existência. Para existir é necessário viver e também morrer. É um ciclo.

Para situarmos melhor essa reflexão sobre a forma como a cultura influência nossa atribuição de sentido frente a morte, podemos citar que em algumas culturas orientais como a cultura japonesa, chinesa e indiana, influenciados pelo budismo, vêem a morte como um renascimento, um momento de grande alegria e o luto é celebrado com o uso de roupas brancas.

Durante a nossa existência cada ser vai atribuindo sentidos diferentes a essas experiências e criando múltiplos olhares para cada fenômeno, ou seja, cada sujeito atribui um sentido, e um significado diferente para a vida e também para morte. Alguns vão buscar esse sentido na religião, outros vão buscar esse sentido na natureza, outros na ciência, outros na filosofia, sociologia, e afins e outros não conseguirão achar sentido nenhum.

Freud (1915) já assinalava sobre o impasse vivido pelo ser humano quando se trata de lidar com a morte. Segundo ele "é impossível imaginar nossa própria morte e, sempre que tentamos fazê-lo, podemos perceber que ainda estamos presentes como espectadores".

Para ele não há registro de morte no inconsciente, o que revela nosso desconhecimento sobre ela. Esse fato segundo Freud, faz com que em nosso inconsciente ainda exista uma ideia de imortalidade, que pode explicar porque esse tema pode ser tão disruptivo.

Segundo o psicanalista Cassorla, o suicida não desejaria morrer em si, uma vez que ele não sabe o que é a morte. Ele na verdade vê na morte uma saída e não um objetivo. Ele quer matar a dor que se encontra dentro dele.

Porém trazemos conosco as marcas de se viver imerso em uma sociedade hedonista, que busca a todo e qualquer custo viver plenamente, que prega a busca pela felicidade, que ordena o goze a qualquer preço, que quer usufruir de todo e qualquer meio para manter a vida, custe o que custar. Como pensar e se dispor a refletir sobre aquele sujeito semelhante a mim que deseja acabar de maneira voluntária com sua própria existência?

Em uma sociedade onde chorar é sinônimo de fraqueza, onde não há permissão nem tempo de se sentir triste, onde tudo se tornou precificável e onde somos onipotentes e “damos conta de tudo”, é inadmissível perder o desejo pela vida. Como se sentir infeliz em um mundo repleto de soluções materiais?

Nessa hora, quando nos deparamos com esse sujeito que diz que não tem mais o desejo de estar vivo, ou não vê outra possibilidade senão a morte, iniciamos uma busca incessante por explicações.

Pensamentos passam pela nossa cabeça tentando dar conta da ausência de sentido: “nossa mas ele têm tudo, como pode querer morrer?”. Como alguém pode querer morrer se buscamos fazer o possível e o impossível para manter as pessoas vivas?

Porém, nos esquecemos de duas coisas: estamos falando de uma realidade subjetiva e que, portanto só o próprio sujeito poderá falar dela; e em segundo estamos frente à incompletude humana, ou seja, ter não é sinônimo de nada. Posso ter tudo na minha realidade concreta e me sentir vazio existencialmente.

E frente a esse vazio de sentido, tentamos tampar esse buraco com explicações recheadas de nossos próprios sentidos, e muitas vezes, por não conseguir lidar, deixamos de escutar e olhar o sujeito que ali esta com esse desejo, e que até o momento se encontra querendo falar dele, seja por palavras ou por comportamentos.

Tentamos ajudar apontando para esse sujeito motivos para convencê-lo a viver. Ações e pensamentos que ele deveria ter para que esse desejo de morte fosse aniquilado. A questão é: exigimos o desejo de viver de alguém que não está sustentando nem sua própria existência. Viver nesse caso, se torna uma obrigação e não um desejo. O desejo de morte continua e não foi ouvido, acolhido.

Nesse ponto, acredito ser importante refletir alguns pontos específicos sobre o suicídio começando pela diferenciação de ideação e ato. Ter idéias e pensamentos de morte geralmente antecede o ato de suicídio. O suicídio não é um ato isolado, se inserindo em um contexto subjetivo individual e em um contexto social, tendo, portanto antecedentes que o constituí. O sujeito pode começar a apresentar de maneira clara ou não, a existência desse desejo. E é preciso estar atento a esses antecedentes e por meio de seu acolhimento propor-lhe ajuda profissional para que o mesmo caminhe no sentido de compreender o que o levou de encontro a esse estado.

É importante também situarmos que o desejo é do sujeito, portanto não temos o poder de arrancar-lhe tal condição desejante, mesmo que como ente querido ou profissional esse seja muitas vezes nosso desejo.

A ideação suicida é um sintoma psíquico que como qualquer outro sintoma trás consigo uma metáfora do sujeito, trás a marca de sua existência. O sintoma se apresenta para que esse sujeito consiga dizer por meio dele algo que não conseguiu dizer através de palavras talvez nem para si mesmo. O sintoma é uma via para que consigamos acessar esse sujeito.

Portanto, precisamos acolhê-lo em sua totalidade, acolher o sujeito e seu sintoma. Precisamos ouvir e deixar falar. Mas acolher não é fácil. Existe a instauração de um grande mal estar quando nos deparamos com alguém marcado por esse desejo, assim como sentimos quando nos deparamos com a morte, seja de algum ente querido, seja de alguém que nem sequer conhecíamos.

O fenômeno morte em nossa cultura é marcado pela angústia e desamparo. Perder em qualquer âmbito e dimensão em nossa sociedade é visto como algo negativo. Seja a perda de um emprego, perda de um ente querido ou até mesmo perda da própria vida.

Mas se pararmos para pensar, vivemos e morremos todos os dias. Passamos por processos de luto todos os dias, elaborações de perdas reais ou abstratas. Perdemos, mas com as perdas ganhamos. Morremos, mas com o final de diversos elementos em nossa vida algo novo nasce.

Certa vez li em um texto de, que nenhum assassino o é até que cometa o primeiro assassinato. Com o suicídio o raciocínio não é diferente. Frente a isso vamos esperar que o ato seja cometido ou se possível vamos tentar propor ajuda profissional e se mostrar disponível a escuta desse desejo que pode ainda se encontrar no campo das idéias?

Se nos dispusermos a refletir sobre a morte e sobre o morrer, conseguiremos ouvir sobre isso de uma forma mais natural e acolhedora aumentando as chances de efetivamente alcançar o sujeito. Buscar ajuda profissional é de extrema importância, mas o acolhimento desse sujeito pode ser feito por qualquer pessoa.

Acolhê-lo em sua dor e em seu desejo, e a partir disso propor que ele trilhe seus caminhos em busca de suas próprias respostas ou ainda de novas perguntas. São questões difíceis de pensar e principalmente de se vivênciar, mas é preciso aprender sobre o viver, e também sobre o morrer.

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